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Sua marca é a mais fotografada do mundo?

Recentemente voltei de uma viagem pelo velho oeste americano. Entre muitos cenários icônicos, certo dia em meio a uma tempestade que se aproximava, me deparei com um lugar bucólico emoldurado pelos grandes picos nevados do Grand Teton. Neste lugar, um celeiro simples e típico do Wyoming, construído por colonos mórmons no início do século passado, era alvo de turistas e fotógrafos interessados. Era o T. A. Moulton Barn, ponto indicado como muito interessante dentro do Parque Nacional e, alguns anos atrás, designado como o celeiro mais fotografado da América.

Minha curiosidade não cessou. Fiquei me perguntando como alguém poderia fazer um ranking de celeiros mais fotografados e qual seria o processo para medir e chegar as conclusões sobre aquele que mereceu mais disparos. Também comecei a refletir o que fazia com que um celeiro torna-se alvo de fotógrafos ávidos. Afinal, será que o que os diferenciava nas escolhas eram os próprios celeiros ou a aura e histórias que os cercavam, inclusive o fato de ser apontado como “o mais fotografado da América”.

 

As pessoas tiram fotos de tirar fotos

 

Então encontrei uma passagem do livro White Noise. Em um dos seus trechos, ele cita uma visita a um hipotético celeiro mais fotografado da América. Após passarem por diversas placas de estrada apontando o caminho e reforçando o fato de ser o mais fotografado, dois personagens chegam ao local, estacionamento cheio de carros e ônibus, vendedores de gifts e postais por todos os lados e muitos, muitos turistas e fotógrafos amadores com seus tripés, lentes especiais e filtros tentando tirar a melhor foto. Contemplando a cena, o observador do livro chega a uma conclusão. Ninguém aqui está vendo o celeiro. Quando você vê as placas sobre o celeiro, torna-se impossível vê-lo de fato depois. As pessoas estão ali, não para capturar uma imagem, mas para manter uma. Cada fotógrafo reforça a aura. Estar junto àquele local é uma espécie de rendição espiritual. Nós vemos somente o que os outros veem. Os milhares que já estiveram ali no passado, e todos aqueles que ainda virão um dia. Estar ali é concordar em ser parte de uma percepção coletiva.

 

Há muitas marcas iguais, mas algumas são percebidas menos iguais

 

O que isso tem a ver com o universo do branding? Desconfio que muito. Estamos cheios de celeiros, uns um pouco mais bonitos que outros, alguns com entornos mais encantadores, há maiores e menores. No entanto, certas marcas são mais procuradas que outras, há mais placas na rodovia apontando seu caminho. Há mais gente por lá. Por consequência há outros querendo também fazer parte. A história passada construiu um mito, assim como o presente o reforça e o futuro encarregará de ampliar. Muitos estão ali pelo simples motivo que outros também estarão. Questionados tentarão justificar que aquele celeiro é completamente diferente dos demais. Mas quando pressionados a responderem o porquê, no final dirão que se não fosse mesmo diferente, não seria o mais fotografado daquele continente.

O celeiro de T.A. Moulton no Grand Teton não é o mesmo celeiro do livro White Noise, mesmo que as histórias guardem algumas semelhanças entre si. Não sei se os motivos daquelas pessoas ao seu redor no Parque Nacional, se devem a fama de mais fotografado, talvez muitos nem saibam disso. No entanto, tenho poucas dúvidas sobre as escolhas inerciais que são feitas diariamente pelas pessoas por marcas que representam mais do que intrinsicamente são. São como celeiros, iguais a tantos construídos por aí, mas que carregam uma carga de significado adicionado pela própria fama que a auto alimenta constantemente. Nesta disputa por espaços na mente das pessoas, como sua marca está posicionada hoje? Ela pode ser considerada a mais fotografada em alguma categoria? Ou é apenas mais um daqueles celeiros esquecidos um canto qualquer do planeta.

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2 Comments

  • Reply Gilnei Silva

    Realmente impressionante como consegue envolver as pessoas em volta de um tema. Parabéns, Felipe.

    agosto 16, 2018 at 1:07 am
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