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Quando um Porsche pode destruir seu destino de sucesso

Imagine você ser jovem, bonito, famoso e rico. Jogar futebol nos gramados mais valorizados do mundo. Ser adorado pelos torcedores mais fanáticos. E ainda por cima, ser o centro de uma das disputas mais intensas por um passe de atleta. O ano era 1992, e o todo-poderoso Milan despejou quase 30 milhões de euros na sua contratação. A partir daquele momento tornava-se o jogador mais caro da história, título que sustentou por alguns anos. O valor era tão absurdo que até o Vaticano se manifestou dizendo ser “uma ofensa à dignidade do trabalho”. Silvio Berlusconi, o presidente rossonero, fez ouvidos de mercador. A maior promessa do futebol italiano, no mais poderoso clube da época. Essa combinação indicava que Gianluigi Lentini seria um protagonista de luxo no planeta bola. Seria.

Assim como aquele avião descompromissado para Los Angeles fez decolar a carreira anônima de Bruce Willis, outro evento fortuito afetou opostamente o futuro de Lentini. Em 1993 um Porsche Carrera rasga uma autopista italiana tal qual uma serpente atrás de uma presa. O motor aumenta os giros e o ponteiro passa dos 150km/h. Um pneu estoura e o esportivo alemão capota diversas vezes e, antes de explodir, expele o jovem talento milanês no asfalto. O impacto provoca uma série de lesões na cabeça e no corpo. Por milagre sua vida não é levada. Após passar um breve período em coma e um longo de recuperação, ensaia uma volta aos gramados. Quando definitivamente consegue jogar, aos poucos as pessoas vão percebendo que aquele que corria pela ala lembrava vagamente o grande talento de antes. Olhar perdido e jogadas óbvias mostravam a distância entre aquele Lentini que encantou fãs deste que ressurgia após a quase morte.

As oportunidades passam. Para alguns uma vez na vida. Diversos ditos populares exemplificam isso. E o que significa? Que devemos estar preparados para saltar no (e do) trem toda vez que ele passar por uma destas estações. Mas como saber que estamos na certa? De algumas teremos certeza somente com a perspectiva do tempo. Outras não deixarão nenhuma dúvida. Sabemos de pronto que devemos escolher aquela conexão que irá nos levar aonde queremos. Um misto de intuição e fatiamento fino das informações disponíveis irá ajudar nesta tarefa. Assim, quando o momento chegar é importante que tenhamos preparo para realizar esse salto calculado.

De outro lado, temos o reverso. Quando nossas decisões ou eventos dos quais desconhecemos as forças nos levam para onde não desejamos. Erros pequenos, eventuais, fracassos pessoais, ou conjunção de fatores que nos prejudicam. E aquela imagem de que tudo poderia ser diferente se não fosse. Ah, se Zico não tivesse perdido o pênalti, se Tancredo não tivesse morrido, ou se você tivesse dito um não ao invés daquele talvez. Você alguma vez já deve ter sentido o arrependimento da escada. Ao sair de uma reunião, descendo os degraus, colocar a mão na cabeça e lembrar “por que não disse isso aquela hora”. Tarde demais.

Devemos estar sempre prontos, para fracassos eventuais ou definitivos. E saber conviver com eles, pois fazem parte do mesmo jogo. Lentini terminou jogando partidas esquecidas em campeonatos amadores no interior da Itália. Ganhando salários que eram frações ridículas perto do mundo dos milhões em que viveu. No entanto, tocou a vida em frente, continuou fazendo aquilo que sabia e gostava: jogar futebol. E você, como reagiria? Como esta treinando para aceitar a glória dos holofotes ou conviver com as sombras da mediocridade? Lembre-se, a próxima esquina ou o próximo Porsche pode redirecionar sua vida.

Felipe Schmitt-Fleischer

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@fsf11

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